Vida é Crônica

Numa manhã de sol eu caminhava pelas alas de um shopping que simula uma cidade, com arruamento ao redor para transitar carros, uma praça central com chafariz, árvores, bancos, postes, lojas, restaurantes e prédios.

Os velhotes iam para onde tivesse assento e um pouco de sol. As crianças, umas com patinetes circundavam o chafariz e ensaiavam uma passagem emocionante por uma ponte sobre um pequeno lago artificial, outras alimentavam com pipoca os peixes horríveis e desproporcionais que praticamente poluíam o lago raso. 

Os mais jovens exibiam seus trajes vanguarda, namoravam e buscavam um local perfeito pra valorizar uma selfie. Os cachorros circulavam na guia, abanavam seus rabos e socializavam muito mais que seus donos.

Conforme eu caminhava ia aceitando aquela aberração em forma de cidade, só abalando a minha tranquilidade os numerosos seguranças fazendo a linha figuração de filme do Charles Bronson. Enfim, foi distrair dos seguranças para ver a ternura e poesia do encontro, a comunhão do homem com a natureza. Dois garçons, sentados em um banco, esperavam o horário do expediente ouvindo o canto dos passarinhos. Eles ficavam calados, só curtindo o som.

Fiquei tocada com a cena! Não consegui parar de olhar para os rapazes, embora quisesse ver os passarinhos. Quando cessou o canto, um dos rapazes pegou o celular, apertou o play e fez o passarinho começar a cantar novamente. Abominações à parte, achei os sujeitos geniais. Afinal, para um simulacro de cidade um canto de passarinho à altura.

Priscilla Oliveira Xavier

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