Quando um livro vira um clássico

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“Quando a Rua Vira Casa”, de Arno Vogel, Marco Antonio da Silva Mello e Orlando Mollica, publicado originalmente em 1989, com apresentação de Carlos Nelson Ferreira dos Santos, chega à sua quarta edição, pela Editora EDUFF, com a apresentação de Felipe Berocan Veiga e Soraya Silveira Simões.

O livro é o relatório final de um trabalho de equipe desenvolvido em 1979, no bairro do Catumbi e na Selva de Pedra, na cidade do Rio de Janeiro, junto ao Centro de Pesquisas Urbanas do Instituto Brasileiro de Administração Municipal[1]. Com o enquadramento conceitual e metodológico à cargo de Arno Voguel e Marco Antonio Mello, e registros visuais de Orlando Mollina, o relatório da pesquisa “Espaço Social e Lazer, Estudo Antropológico e Arquitetônico do Bairro Catumbi” se consolida como uma leitura densa, de um recorte metropolitano carioca, abarcando a materialidade e o simbólico, as afetividades e o cotidiano, com cerne antropológico e viés crítico.

A apresentação do livro, escrita por Felipe Berocan Veiga e Soraya Silveira Simões, é preciosa ao discorrer sobre a necessidade e o quilate da quarta edição. Conduz o leitor à conjuntura política, social e econômica que animou o trabalho de pesquisa em um período de intensas transformações urbanísticas que adaptavam a cidade do Rio de Janeiro a um projeto de integração nacional, com peso na concepção urbanística racional e progressista. Simultaneamente, remontam o estado da arte das pesquisas sobre o urbano, deflagrando por um lado um certo ineditismo do investimento antropológico para produzir compreensões sobre o fenômeno urbano no Rio de Janeiro, e por outro a necessidade de aproximação dos conceitos e metodologias das ciências sociais ao campo da arquitetura e do urbanismo.

A costura da conjuntura, de questões urbanísticas, antropológicas, sociológicas e políticas mais do que ratificar a relevância do trabalho como um marco nas pesquisas do campo disciplinar da antropologia urbana, atualiza o conteúdo e endereça o livro como essencial à formação dos que se dedicam aos fenômenos urbanos, aos que produzem pesquisas nas cidades, aos que fazem pesquisas sobre as cidades e aos que nutrem algum interesse pelo Rio de Janeiro e a dinâmica e história dos seus bairros. Revela ainda que a quarta edição é lançada como uma espécie de acerto de contas, um ajuste moral, reparando equívocos das edições anteriores, cujas fichas catalográficas confundiam créditos institucionais com autorais, além de indexar o livro nas áreas de Renovação Urbana e Planejamento Urbano ao invés de Antropologia Urbana.

Percorrendo os estímulos que deram origem ao trabalho, o Catumbi foi tomado como estudo de base, em virtude da identificação do poder público de um modelo urbano obsoleto, com base em relatórios técnicos de urbanistas nacionais e internacionais, para o qual era indicado a renovação urbana. E para avaliar o que estava sendo proposto como renovação urbana, os pesquisadores tomaram a Selva de Pedra como comparativo, caso de controle, por ser um lugar cujas propostas urbanísticas modernas já estavam vigindo.

Pondo em prática a tradição etnográfica, no trabalho de campo os pesquisadores empreenderam entrevistas, observação direta e participante e produziram registros visuais (mapas, fotos, filmagens), tendo como objetivo iluminar mais do que a materialidade dos espaços, mais do que a transformação física. Tomaram como objetivo a busca dos verdadeiros efeitos das intervenções urbanas. Ousaram avançar do ponto em que o planejamento, do ponto de vista técnico, urbanístico, administrativo e político era tomado como finalizado. E o resultado do empenho dos pesquisadores fez sobressair os usos dos espaços coletivos, as pessoas, as relações, os valores, os ritmos, o cotidiano.

Na introdução os pesquisadores apresentam o estudo, primeiramente marcando o objetivo de tratar das formas de apropriação de espaços de usos coletivos, para melhor compreender os processos de desenvolvimento da cidade a partir do bairro do Catumbi. Explicitam no investimento o cunho reflexivo, revendo e criticando o que estava sendo proposto, executado e defendido por planejadores e pelo poder público. E apostam na relativização das concepções e entendimentos sobre o espaço como um diapasão para uma leitura densa da apropriação e usos dos espaços coletivos no bairro, avaliando os impactos das intervenções na área.

No capítulo intitulado Primeiros Contatos, descrevendo a chegada a campo, os pesquisadores registram um momento liminar em que o bairro já havia sofrido com uma série de desapropriações e a Associação de Moradores atuava mobilizando a população para conter a derrubada de seus últimos quarteirões. E ao explorar os limites do bairro atentam para os efeitos das transformações urbanísticas na experiência e fala dos habitantes. Percebem que os informantes percorrem e descrevem o bairro lançando mão de uma memória, falando das estruturas que já não mais existem. E tal fenômeno fora tomado pelos pesquisadores como uma espécie de “geografia fantástica”. Dando corpo ao capítulo, passam a etnografar as ruas, associando descrição densa e identificação de comportamentos.

Em “Os trabalhos e os dias” os pesquisadores passam a etnografar o familiar, o que todos sabem mas nem todos dão conta, compondo uma gramática do social, tornando-o inteligível. Para tal, investigam como os moradores do bairro classificam os espaços. E combinam um sistema de espaços, um sistema de valores e um sistema de atividades para criar contextos nos quais papeis podem ser desempenhados. Com efeito, chegam na diversidade do bairro e a exploram como princípio estrutural para as relações sociais.

No capítulo seguinte exploram o “Caso de Controle: a “Selva de Pedra”. Sob a hipótese da diferença oposicional em relação aos processos de apropriação dos espaços de uso coletivo, pontuam que o que era espontâneo no Catumbi na Selva de Pedra era planejado. Descrevem a forma, os objetivos e os usos dos espaços na intervenção racionalizadora, apontando o objetivo social de produzir “condições razoáveis” no projeto que previa o adensamento de uma área com a construção de um conjunto de edifícios. Problematizam a ambivalência da “vida comunitária” na fala dos moradores, que negam a denominação “conjunto” para falar da “Selva de Pedra” e que recorrem à concepção estratégica da homogeneidade acionada por critérios de classe social, diluída em filtros como renda, instrução, lazer e/ou categoria profissional. E a homogeneidade da “vida comunitária” em um espaço “selecionado” revela questões problemáticas na desintegração do conjunto com o bairro, exposta pelos informantes da Selva de Pedra nas preocupações com a violência, segurança e privacidade. A desintegração, expressa em acusações e suspeitas, chega a produzir, alimentar e direcionar um estigma aos habitantes do conjunto vizinho, a Cruzada São Sebastião, abordada na dualidade pobres e ricos, seguindo o foco nos usos dos espaços comuns, dos logradouros públicos.

Na “Conclusão: rua ou “Selva de Pedra”? as modalidades de apropriação dos espaços de uso comum são postas lado a lado, o Catumbi como “o mundo da rua” e o caso de controle como “Selva de Pedra”, para estabelecer conclusões gerais que desmistificam a cidade funcional. Antes da condenação completa de um modelo ou outro, a pesquisa abre caminho para um dilema acionado pela oposição entre a tradição e a modernidade. E se desvencilha de uma formulação simplista e maniqueísta ou de uma sentença conclusiva ao exaltar o complexo e o diverso e a união da forma e da essência dos espaços correspondentes aos sentidos conferidos pela sociedade e pela cultura.

A rigor, a pesquisa reverbera como uma crítica ao fazer planejamento que exaltava o racionalismo, assumia o utopismo, mas não raro menospreza as vivências, as tramas culturais, históricas e afetivas que tecem os sentidos do urbano. E dando clareza à crítica ao racionalismo, na conclusão uma frase sintetiza o impulso do trabalho: “O mundo das práticas cotidianas tem desafiado abertamente a paixão racionalista” (p.164)

O relatório é virtuoso do ponto de vista metodológico, incitando e valorizando abordagens qualitativas, densas, vigorosas na dimensão simbólica, com sólidas referências do fazer antropológico e abertura para o diálogo não hierárquico entre diferentes saberes, do científico ao popular, além da sutileza eloquente de usar não apenas as fotografias como representação falaciosa do real, mas também desenhos e mapas, conferindo o devido crédito às subjetividades que atravessam a representação dos espaços.

Em acréscimo à robustez metodológica, é preciso destacar que se trata de um trabalho fecundo no que tange as possibilidades de compreensões acerca da atualização de práticas e discursos urbanísticos. Uma leitura providencial, cujo teor crítico se desdobra em questões complexas perpassando a conjuntura política e econômica e as práticas cotidianas, que traduzido para termos atuais, diz respeito aos impactos das tendências globais no local.

Com o neoliberalismo tocando de modo paradigmático as cidades, a quarta edição do “Quando a Rua vira Casa” chega ao público leitor com a pompa de um clássico. Um clássico não no sentido de algo velho e sim no sentido de algo pertinente em qualquer tempo. Guardadas as especificidades, ter em mãos uma abordagem qualitativa da modernização de um bairro da cidade do Rio de Janeiro favorece compreensões sobre as cidades que acatam os imperativos de se tornarem competitivas. A renovação urbana de lugares justificada pela defasagem de um modelo urbano, apresentada como estímulo para a produção da pesquisa no Catumbi, de algum modo se relaciona com os disseminados projetos de revitalização de áreas diagnosticadas como degradadas estrutural, social e/ou ambientalmente. E até o acusado “pouco caso” do poder público com a cultura, história e vivências dos moradores dos locais que “carecem” de uma renovação urbana pode ser sugerido como que um ato de anuência para o que na atualidade se problematiza como gentrificação.

Ao passar a limpo a modernização da cidade que obedecia uma gramática científica e progressista, o estudo de caso apresentado no livro registra um momento da cidade, exibe um tipo de análise de antropologia urbana e fomenta a complexificação de questões relacionadas com a produção do urbano, que permanecem na ordem do dia, tornando-se uma leitura obrigatória, e bastante agradável, que ilumina e inspira perspectivas do urbano em geral e do Rio de Janeiro em particular.

[1] Criado em 1952 no Rio de Janeiro, o instituto é uma associação civil, sem fins lucrativos ou vínculos partidários, com o objetivo de estimular o desenvolvimento da administração pública, para a formulação de políticas e prestação de serviços, especialmente na esfera municipal, em prol de uma sociedade justa e democrática. Para saber mais: http://www.ibam.org.br/home (acessado em 02 de Junho de 2017)

* Resenha de Priscilla Oliveira Xavier (Doutoranda IPPUR/UFRJ – Julho /2017)

Do Porto ao Porto Maravilha

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O Rio de Janeiro passa por intensas transformações. Da estrutura urbana às tramas políticas e econômicas e convulsões sociais, a cidade ganha projeção e torna-se um espaço para onde convergem olhares, interesses, negócios, grandes eventos e pessoas. Imersos no fenômeno, torna-se difícil compreender tudo o que está acontecendo. No entanto, a cidade intensa e complexa é um objeto instigante de investigações e registros variados.
Do Porto ao Porto Maravilha: discursos que (re)criam a cidade é um trabalho que registra um momento de intensas transformações no espaço urbano do Rio de Janeiro, no anseio de reestabelecer o prestígio da cidade frente ao país e ao mundo. Priscilla Oliveira Xavier analisa as estratégias de atuação dos grandes capitais, o comportamento do Estado e as articulações da sociedade civil a partir de discursos produzidos em arenas políticas. Toma como estudo de caso o projeto de revitalização da região portuária central do Rio de Janeiro, na figura de uma Operação Urbana Consorciada, cujo nome fantasia é Projeto Porto Maravilha. Valendo-se do método etnográfico casado com a análise de discurso, aborda eventos que reúnem atores de diferentes inscrições para tratar do projeto, fazendo sobressair nos discursos questões políticas.
 
Caso se anime, a autora, que vos escreve, disponibiliza o livro por R$50,00. E envia autografado, para o endereço desejado. Basta enviar email para priscillaxavier@gmail.com

Nova Praça Mauá – 11 de Setembro de 2015

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A inauguração da nova Praça Mauá seria apenas mais uma inauguração de uma praça, não estivesse a Praça Mauá inserida em um perímetro estratégico. Trata-se da entrega de um dos pontos atrativos da Operação Urbana Consorciada Porto Maravilha, reforçando a posição do Rio de Janeiro entre as grandes cidades da economia mundial.

Descrevendo o cenário, a praça Mauá é uma área de convergência entre o Pier Mauá, o prédio RB1, o edifício da antiga Rádio Nacional, a dúbia edificação do Museu de Arte Rio, com seu sugestivo nome MAR, e a ainda inacabada estrutura nababesca do contraditório Museu do Amanhã.

Avançando anos sob a indiferença do poder público, um terminal rodoviário, transeuntes e sujeira compunham a paisagem da Praça Mauá. Abaixo o terminal, modificação de canteiros, avanço de explanada e aparelhamento com bancos, iluminação, trilhos do VLT, sinalizações e até policiamento, eis a nova Praça Mauá.

E para tornar o evento um acontecimento não faltaram atrativos. No MAR exposições que dialogavam sobre a transformação do Rio de Janeiro. no Pier Mauá o RioArt, uma feira condensando exposições, galerias, artistas e tendências do mundo da arte e do design. Espalhados entre o Pier Mauá, o MAR e a praça Mauá, food truckers que se tornaram a sensação da cidade. E explorando a área, a praça foi palco para o Visualismo, um festival de arte urbana e tecnologia que promove intervenções em pontos variados da cidade.

Praça cheia, música alta e luzes em movimento para todos os lados, de cores variadas, intercaladas com projeções nas fachada dos prédios ao redor. Pessoas chegando de bicicleta, crianças circulando e todos com celulares e câmeras em punho, em busca dos melhores ângulos.

Entre a Praça Mauá e o Museu do Amanhã foi posicionada a hastag #CidadeOlimpica, com cerca de dois metros de altura por 25 metros de largura, com holofotes de baixo para cima para dar destaque e profundidade, favorecendo as fotos do local, no intuito de que a população propagasse essa imagem para o mundo.

O local foi incorporado pela Prefeitura, e nele construído um cenário perfeito, abrigando possibilidades de experiências urbanas intencionalmente surpreendentes. Mas o controle dos planejadores desse espetáculo não dão conta da astúcia da população na apropriação e usos dos espaços públicos.

Um exemplo clássico são os bancos, com um design arrojado, com pé (ou base) projetado em apenas um lado. A ideia básica devia ser para o assento, mas os skatistas enxergam como um objeto que auxilia suas manobras, embora a fiscalização iniba a prática.

O mesmo controle não funcionou para as crianças que se empenhavam em bicar os refletores da hastag #CidadeOlimpica. E a noite, para que a hastag não ficasse literalmente apagada, alguns técnicos precisaram trabalhar. Consertaram e enterraram os spots de luz para minimizar os imprevistos.

E a medida da irreverência da população ficou por conta do uso da hastag. Ao invés de fotografarem a hastag na íntegra, exibindo a estrutura do Museu do Amanhã ao fundo, a população disputava as quatro últimas letras para o enquadramento da palavra PICA. E assim o Rio de Janeiro com a inauguração da Praça Mauá foi para as redes sociais!

Texto e Imagens: Priscilla Xavier

Vida é Crônica

Numa manhã de sol eu caminhava pelas alas de um shopping que simula uma cidade, com arruamento ao redor para transitar carros, uma praça central com chafariz, árvores, bancos, postes, lojas, restaurantes e prédios.

Os velhotes iam para onde tivesse assento e um pouco de sol. As crianças, umas com patinetes circundavam o chafariz e ensaiavam uma passagem emocionante por uma ponte sobre um pequeno lago artificial, outras alimentavam com pipoca os peixes horríveis e desproporcionais que praticamente poluíam o lago raso. 

Os mais jovens exibiam seus trajes vanguarda, namoravam e buscavam um local perfeito pra valorizar uma selfie. Os cachorros circulavam na guia, abanavam seus rabos e socializavam muito mais que seus donos.

Conforme eu caminhava ia aceitando aquela aberração em forma de cidade, só abalando a minha tranquilidade os numerosos seguranças fazendo a linha figuração de filme do Charles Bronson. Enfim, foi distrair dos seguranças para ver a ternura e poesia do encontro, a comunhão do homem com a natureza. Dois garçons, sentados em um banco, esperavam o horário do expediente ouvindo o canto dos passarinhos. Eles ficavam calados, só curtindo o som.

Fiquei tocada com a cena! Não consegui parar de olhar para os rapazes, embora quisesse ver os passarinhos. Quando cessou o canto, um dos rapazes pegou o celular, apertou o play e fez o passarinho começar a cantar novamente. Abominações à parte, achei os sujeitos geniais. Afinal, para um simulacro de cidade um canto de passarinho à altura.

Priscilla Oliveira Xavier

Smart Cities

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No dia 30 de Abril a Casa do Saber recebeu o Fórum COPPEAD em Smart Cities. O evento foi promovido pela COPPEAD e seus parceiros, celebrando os 450 anos da cidade e tornando público pesquisas e ações que vêm transformando o Rio de Janeiro.

Elaine Tavares, professora e coordenadora do Centro de Estudos de Cidades Inteligentes, abriu o evento dando as boas vindas a todos e apresentando a ideia do fórum, os convidados e as temáticas. Enfatizou que cidades inteligentes toureou-se um grande tema nesse momento, com tudo a ver com os jogos que estão chegando, e com a transformação da sociedade pelo uso intensivo da tecnologia. Explicou o que é o centro de estudos de cidades inteligentes. COPPEAD é uma pós graduação em administração da UFRJ, criado em 1973 como parte da COPPE, autônomo desde 1983. Com 10 cátedras de pesquisa, com investimento de pesquisa vindo de empresas. O centro de pesquisa em Cidades Inteligentes surge das pesquisas da Cátedra EMC em BigData. O fórum tem portanto como objetivo discutir o tema apresentando o centro e seu plano de trabalho, ampliação da rede, sendo o primeiro de uma série de eventos que pretendem promover. Apresentou por fim seus convidados, Flanklin Dias Coelho (Secretário Especial de Ciência e Tecnologia da Prefeitura do Rio de Janeiro), Fred Arruda (Diretor de Operações do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da EMC no Rio de Janeiro) e Alexandre Evsukoff, professor da COPPE.

Franklin Dias Coelho foi o primeiro a ter a palavra. Explicou que há algum tempo a prefeitura trabalha com o conceito de cidades inteligentes, cidade ágil, sustentável, resilientes, sensível, educadora, digital, criativa, cognitiva. Que em 2009 foi feito um plano estratégico, e em 2010 uma revisão já operando a concepção de cidades inteligentes, com visão de futuro, pensando o Rio de Janeiro como um território inteligente. Utilizam para tanto três elementos de escala, sendo eles cidade digital, cidade inteligente e comunidade inteligente. E o caminho projetado envolve processos, sistemas e governança. E como exemplo do emprego dessas ideias menciona o Projeto Porto Maravilha, um projeto de parceria público privada.

Ponderou que para construir uma cidade inteligente é imprescindível uma rede capaz de conectar governo, empresas e cidadãos. Essa é a pré condição de cidades inteligentes, com a prioridade inicial em prédios públicos. A agilidade, com ciência, big data e um novo paradigma de design, planejamento e políticas urbanas, abrindo caminhos para uma nova ciência urbana, a partir de clusters de informações, com o Instituto Pereira Passos, cruzando dados. Iniciou com o RioDatamine, com 46 bancos de dados, entre eles o do IPP. Soma-se o Data.Rio e toda uma engenharia institucional para formação de dados sobre a cidade. Conjuntamente, o Wazy, o Buus e demais aplicativos que ampliam as possibilidades de integração e articulação na cidade, especialmente em termos de acessibilidade.

Franklin apresentou ainda a arquitetura nômade que tem como ideia se valer dos equipamentos construídos para eventos serem formatados para aproveitamento público, como escolas ou postos, não deixando na cidade os chamados elefantes brancos. Na visão de cidade educadora tem a proposta de naves do conhecimento, como instrumentos para a construção de bairros inteligentes, integrando educação formal, informal e construção coletiva do conhecimento. O cidadão protagonista é uma proposta interativa nas naves do conhecimento, com direito à informação e conhecimento, além da integração de saberes e cultura, ampliando os caminhos de comunicação, em que as comunidades assimilam, articulam e produzem conhecimentos.

O Rio como Cidade Cognitiva, o projeto cidade de Ideias para a disseminação da informação e colaboração para inovação, com o Rioapps e o RioDatamine. E a partir das ideias o RioApps, como caminho para startups. Já existe o Cidadão10,#streetArtsRio, PROCONCarioca, UPA, Restaurantes e o mais famoso a ganhar o prêmio foi o EasyTaxi. Conectividade, BigData para se transformarem em serviços para a população.

Fred Arruda foi o segundo convidado, falando da empresa EMC, seus produtos e pesquisas. A EMC nasceu de uma tese de doutorado nos EUA e hoje está presente em mais de 90 países no mundo. Tradicionalmente vende soluções de storage, ou seja, armazenamento de dados. E a empresa é composta pela EMC, RCA como empresa de segurança, Piveton e a Viemany com soluções de virtualização. Como a internet agiliza as trocas de informações, tanto as empresas quanto as pessoas necessitam se redefinir.A EMC trabalha com venda de storage mesmo antes da maior difusão da internet, mas a empresa passa pelo processo de redefinição. Se instalou no Rio de Janeiro com um centro de Pesquisa, distinto dos demais que desenvolvem BigData, voltado para a indústria de óleo e gás. Por ter o setor público como um grande cliente, o seu grande desafio era o de ampliar o diálogo, trabalhar mais juntamente com o setor público, pensando tecnologias para as cidades inteligentes.

Fred recordou que até bem recentemente pensar em cidades inteligentes não ia muito além de acessibilizar internet em praças e em áreas centrais. E menciona o exemplo de Piraí que foi a primeira cidade digital do país, e que foi além de fornecer acesso a internet nas praças.

Concluindo, Fred mencionou que em 2012 o governo federal estimulou a gestão dos municípios com uso ampliados da informação. E na ampliação da capacidade de armazenamento e gestão de dados é que a EMC vem atuando, dialogando sobretudo com o setor público para dar suporte e tornar possível a estruturação de cidades inteligentes.

O Prof. da COPPE Alexandre Evsukoff foi o último dos convidados a se apresentar, com uma fala mais didática sobre o uso de soluções inteligentes para problemas comuns nas grandes metrópoles. Iniciou expondo que há dois tipos de crescimento da cidade, a sublinear que dobra a população sem necessariamente o dobrar da estrutura, e o super-linear em que a população aumenta e a estrutura aumenta até mais. No outro caso, quando os demais fenômenos aumentam até mais que a população levam as cidades ao colapso. Pesquisas indicam que a tecnologia pode incidir favoravelmente nesses casos. E em complemento afirmou que cada portador de celular torna-se um sensor que capta e transmite informações a todo momento. Sejam dados públicos ou privados, a ideia é o uso que forneça soluções para as questões que se impõem nas cidades. Seja no trânsito, no uso dos equipamentos públicos, no acesso ao lazer etc.

Na segunda parte da apresentação se dedica aos padrões de mobilidade. Em seu projeto utiliza base de dados de celular para saber onde estão concentradas as pessoas. Embora a malha seja mais fina no centro e zona sul, seus gráficos apontam que há densidade na zona oeste. E com o registro de chamadas e trajetórias pode-se definir a matriz origem e destino, por dia. Com estes dados pode-se adaptar o fluxo de transporte, fornecendo um serviço mais eficiente para a população.

Fechando o evento Elaine Tavares aborda o conceito de Smart City e explica como ela vem construindo uma agenda de pesquisa. Para Eliana Smart City pressupõe o uso de tecnologia para melhorar o planejamento urbano, administração municipal e qualidade de vida. E que esse arranjo é também um fomento ao ambiente econômico.

Refletindo sobre o termo, Elaine considera que smart city não é exato. Há momentos em que não se trata apenas de cidades, pois há bairros, comunidades, regiões envolvidas nesse processo. E o Smart não quer dizer  inteligente, é esperto. Mas a concepção vai além disso, afinal, o foco é o cidadão, a sustentabilidade da cidade e a qualidade de vida.

Aponta que o caminho de construção da Smart City é a coleta, difusão e análise de informações. Conhecer a cidade e seus habitantes, seus gostos, seus hábitos, e demais dados que precisam ser coletados, disponibilizados e analisados para gerar soluções.

Sua análise de uma Cidade Inteligente tem três propósitos, a informação, o aperfeiçoamento e a previsão. Nesse processo são essenciais os usos de BigData, e o investimento em TI em todos os setores da gestão municipal, atingindo até diretamente o cidadão que passa a ser um colaborador mais ativo, informando as demandas e dando respostas para as soluções apresentadas pelo município.

Toma como metas universais a qualidade de vida, a revolução do relacionamento das pessoas com o governo, a melhoria dos serviços de compartilhamento de dados, monitoramento e alerta em tempo real, criando consciência da situação da cidade, proteção da privacidade, ambiência do trabalho, infraestrutura de padrão das referências mundiais, proteção contra cyber crimes, apoio às capacidades individuais, otimização de recursos, melhoria do compartilhamento das infra-estruturas, etc.

E como advertência conclusiva, fala que embora o exemplo de Barcelona seja sempre citado como uma Smart City, não é inteligente replicar aquele projeto. Afinal, o Rio de Janeiro é diferente, a população é diferente, e as soluções precisam ser pensada para cada local.

Texto e Imagens: Priscilla Oliveira Xavier

Tudo em ordem, por ordem de quem?

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O urbano não foi uma semente que uma vez lançada no solo brotou. O que hoje entendemos, vemos e experimentamos como cidade é resultado de anos e anos de construção, ideias e relações. E como bem advertiu Weber, o que fez as pessoas se concentrarem no espaço não pode ser colocado exatamente no plano do acaso, afinal, as pressões, interdições e expulsões nos campos, onde as pessoas proviam sua subsistência, têm papel decisivo no processo de urbanização. Entre outros fatores como dotações materiais, produção, mão de obra e mercado, o urbano se realiza por firmes regras de comportamento, também muito conhecidas por civilidade. Dispensando os pomposos termos acadêmicos, miramos a realidade para pensar o quanto a moldura dos comportamentos é constitutiva do espaço urbano.

No Rio de Janeiro, por exemplo, a prefeitura atua com uma secretaria de ordem pública (SEOP), um orgão regulador e fiscalizador da ordem econômica, das posturas municipais e da regulamentação do uso do espaço público. Não é pouca monta. E no Programa Rio em Ordem dá curso a ações de nomes impactantes, mas em nada distante dos seus reais objetivos. A ideia central é o choque de ordem, dispensando explicações para além do objetivo de dar fim à desordem urbana. Outro programa impactante é o Lixo zero, numa parceria da Comlurb com a guarda municipal. fiscalizando e multando quem suja as ruas da cidade. E como exemplo d ordem pública no setor econômico, o programa Empresa bacana, que atua no combate a informalidade em comunidades carentes. Além dos programas, o orgão coordena ações divididas em Unidade de Ordem Pública, (UOP), delimitando áreas prioritárias para concentrar atividades, no mais das vezes pontos turísticos ou de concentração de atividades econômicas. Essas são algumas das atividades fiscalizadas, mas é bom lembrar que me referi a competência direta da prefeitura.

Há espaços de convivência que deixam dúvida de quem é a responsabilidade por zelar, mas é certo o fato de que há fiscalização. Um desses espaços de repressão que anda dividindo opiniões é o transporte público, especialmente os serviços prestados por empresas terceirizadas. O metrô tem sido local tanto de insegurança, por assaltos e acidentes, quanto de repressão de atividades. Os seguranças da empresa são acionados em horários de grande movimento, organizando a entrada e saída dos vagões, algumas vezes de modo truculento, e atuando para conter qualquer confusão ou manifestação de descontentamento. Entretanto, nos horários de menor circulação de passageiros e em estações pouco movimentadas, esses funcionários não são vistos, tornando o transporte um local vulnerável, facilitando a ações criminosas (para além do valor da tarifa, claro). Por outro lado, os seguranças atuam de modo eficiente na proibição de apresentações artísticas ou comércio nos vagões.

Os exemplos apresentados demonstram o quanto as ações mais simples do nosso cotidiano estão enquadradas entre o que é ou não é permitido, em um sistema de intensa fiscalização. Não nos damos conta das proibições, na medida em que temos boa parte das ordens introjetadas, como o andar vestido ou não levar o cachorro ao cinema. E o que mais salta aos olhos não é meramente a intensa vigilância de câmeras, o rigor dos fiscais de posturas, os guardas ou seguranças, mas como nós mesmos atuamos diariamente como defensores aguerridos das ordens. Agora pense no seu dia e me diga, quantas coisas você viu hoje e condenou, achando um enorme absurdo? A diferença entre você e o fiscal da prefeitura á a ação, no caso a dele é racionalmente orientada, no exercício de uma profissão, e a nossa socialmente estimulada, nem sempre acompanhada de uma reflexão razoável.

Texto e Imagens: Priscilla Xavier

Urbe para infanto

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Manda o costume brasileiro guardar os feriados. E com tanto zelo que a véspera o e dia seguinte ao feriado se tornam um pouco feriado também. No escritório os que comparecem saem mais cedo. O setor público fica a mercê de um tal de ponto facultativo. As escolas se ajustam como podem ao calendário mínimo. E a população se organiza conforme as circunstâncias. Nesses dias “meio barro meio tijolo” calha das crianças ficarem à toa em casa, as mães ocupadas com afazeres domésticos e sem paciência, e os pais com pendências pra resolver na rua. O arranjo provável é o pai levar as crianças para a rua, e a conclusão em geral é de que a experiência não é muito boa, mas serve para pensar.

E lá se vai o pai ou a mãe para a rua com duas crianças. A caminhada na calçada é algo trivial, mas requer cuidados. O calçamento nem sempre é nivelado, as garagens nem sempre são devidamente sinalizadas, alguns carros estacionam sobre a calçada obrigando o pedestre a ganhar a rua, e as vezes a altura do meio fio exige esforço complicado para crianças e idosos. Olhos e ouvidos atentos, os pais com muita atenção tiram esse desafio de letra. Vencido o passeio na calçada, em alguma momento chega a travessia. Essa é perigosa para todos. Vale a regra de esperar o sinal e atravessar na faixa. As vezes o tempo para travessia exige que o adulto puxe a criança, quase corra. Nesse caso é válido lembrar aos motoristas que o sinal estar aberto não legitima investir contra os pedestres, e crianças e idosos caminham em tempo diferente, é preciso parcimônia.

No caso de ruas em que os veículos podem trafegar em alta velocidade os sinais e faixas são substituídos por passarelas. E a passarela precisa ser usada, de mãos dadas, cuidando para que as crianças não se pendurem aqui e ali para ver o movimento dos carros lá embaixo. Para os adultos pode parecer claro e objetivo que a passarela é um recurso para ele ir de um lado ao outro, mas para as crianças ela pode facilmente parecer um brinquedo, uma aventura, qualquer coisa divertida que aguça a curiosidade. Seguindo, se o passeio for mais distante é necessário o uso do transporte público. Aí a situação pode complicar um pouco.

Para pegar um ônibus com duas crianças é fundamental paciência e equilíbrio. Fazer sinal para o ônibus, embarcar cada uma das crianças, pagar a passagem, proteger as crianças para que se sentem se houver lugar, ou se segurem para não caírem nas arrancadas do percurso. Nos ônibus não há assentos apropriados, cintos de segurança ou barras de apoio em altura boa para as crianças. A população em geral até colabora, sede lugar, segura as crianças, mas a condução definitivamente é hostil a ela.

E o que dizer dos trens metrô? É bem mais tranquilo pagar pelo transporte e passar nas roletas com as crianças. Mas e aquele famigerado vão entre o trem e a plataforma? Já testemunhei adulto cair travado naquele vão me assegurando que o perigo não é uma lenda urbana. Se para adultos é uma temeridade, imagina para as crianças! As composições tem tamanhos variados, fazendo maior ou menor esse vão, mas o perigo de cair ou tropeçar é o mesmo. Pulando o vão, o que dizer do tempo para embarcar nos vagões? Enfim, tem que ficar muito atento para embarcar com rapidez e segurança. E assim como no ônibus é fundamental contar com a boa vontade da população para dar assento às crianças. E caso ocorra de ficar em pé, é prudente se afastar das portas que podem prender os pés, as mãos ou objetos, e a cada estação proteger as crianças para que não sejam arrastadas pelos que saem ou entram.

E então, curtiu a véspera de feriado? Foi bom levar as crianças para passear? Pois bem, todos esses parágrafo para refletir como a ideia de privar as crianças do urbano tem muito mais aderência do que a de tornar o urbano acessível para as crianças.

Texto e Imagens: Priscilla Oliveira Xavier