Do Porto ao Porto Maravilha

livro

O Rio de Janeiro passa por intensas transformações. Da estrutura urbana às tramas políticas e econômicas e convulsões sociais, a cidade ganha projeção e torna-se um espaço para onde convergem olhares, interesses, negócios, grandes eventos e pessoas. Imersos no fenômeno, torna-se difícil compreender tudo o que está acontecendo. No entanto, a cidade intensa e complexa é um objeto instigante de investigações e registros variados.
Do Porto ao Porto Maravilha: discursos que (re)criam a cidade é um trabalho que registra um momento de intensas transformações no espaço urbano do Rio de Janeiro, no anseio de reestabelecer o prestígio da cidade frente ao país e ao mundo. Priscilla Oliveira Xavier analisa as estratégias de atuação dos grandes capitais, o comportamento do Estado e as articulações da sociedade civil a partir de discursos produzidos em arenas políticas. Toma como estudo de caso o projeto de revitalização da região portuária central do Rio de Janeiro, na figura de uma Operação Urbana Consorciada, cujo nome fantasia é Projeto Porto Maravilha. Valendo-se do método etnográfico casado com a análise de discurso, aborda eventos que reúnem atores de diferentes inscrições para tratar do projeto, fazendo sobressair nos discursos questões políticas.
 
Caso se anime, a autora, que vos escreve, disponibiliza o livro por R$50,00. E envia autografado, para o endereço desejado. Basta enviar email para priscillaxavier@gmail.com
Anúncios

Nova Praça Mauá – 11 de Setembro de 2015

Este slideshow necessita de JavaScript.

A inauguração da nova Praça Mauá seria apenas mais uma inauguração de uma praça, não estivesse a Praça Mauá inserida em um perímetro estratégico. Trata-se da entrega de um dos pontos atrativos da Operação Urbana Consorciada Porto Maravilha, reforçando a posição do Rio de Janeiro entre as grandes cidades da economia mundial.

Descrevendo o cenário, a praça Mauá é uma área de convergência entre o Pier Mauá, o prédio RB1, o edifício da antiga Rádio Nacional, a dúbia edificação do Museu de Arte Rio, com seu sugestivo nome MAR, e a ainda inacabada estrutura nababesca do contraditório Museu do Amanhã.

Avançando anos sob a indiferença do poder público, um terminal rodoviário, transeuntes e sujeira compunham a paisagem da Praça Mauá. Abaixo o terminal, modificação de canteiros, avanço de explanada e aparelhamento com bancos, iluminação, trilhos do VLT, sinalizações e até policiamento, eis a nova Praça Mauá.

E para tornar o evento um acontecimento não faltaram atrativos. No MAR exposições que dialogavam sobre a transformação do Rio de Janeiro. no Pier Mauá o RioArt, uma feira condensando exposições, galerias, artistas e tendências do mundo da arte e do design. Espalhados entre o Pier Mauá, o MAR e a praça Mauá, food truckers que se tornaram a sensação da cidade. E explorando a área, a praça foi palco para o Visualismo, um festival de arte urbana e tecnologia que promove intervenções em pontos variados da cidade.

Praça cheia, música alta e luzes em movimento para todos os lados, de cores variadas, intercaladas com projeções nas fachada dos prédios ao redor. Pessoas chegando de bicicleta, crianças circulando e todos com celulares e câmeras em punho, em busca dos melhores ângulos.

Entre a Praça Mauá e o Museu do Amanhã foi posicionada a hastag #CidadeOlimpica, com cerca de dois metros de altura por 25 metros de largura, com holofotes de baixo para cima para dar destaque e profundidade, favorecendo as fotos do local, no intuito de que a população propagasse essa imagem para o mundo.

O local foi incorporado pela Prefeitura, e nele construído um cenário perfeito, abrigando possibilidades de experiências urbanas intencionalmente surpreendentes. Mas o controle dos planejadores desse espetáculo não dão conta da astúcia da população na apropriação e usos dos espaços públicos.

Um exemplo clássico são os bancos, com um design arrojado, com pé (ou base) projetado em apenas um lado. A ideia básica devia ser para o assento, mas os skatistas enxergam como um objeto que auxilia suas manobras, embora a fiscalização iniba a prática.

O mesmo controle não funcionou para as crianças que se empenhavam em bicar os refletores da hastag #CidadeOlimpica. E a noite, para que a hastag não ficasse literalmente apagada, alguns técnicos precisaram trabalhar. Consertaram e enterraram os spots de luz para minimizar os imprevistos.

E a medida da irreverência da população ficou por conta do uso da hastag. Ao invés de fotografarem a hastag na íntegra, exibindo a estrutura do Museu do Amanhã ao fundo, a população disputava as quatro últimas letras para o enquadramento da palavra PICA. E assim o Rio de Janeiro com a inauguração da Praça Mauá foi para as redes sociais!

Texto e Imagens: Priscilla Xavier

Vida é Crônica

Numa manhã de sol eu caminhava pelas alas de um shopping que simula uma cidade, com arruamento ao redor para transitar carros, uma praça central com chafariz, árvores, bancos, postes, lojas, restaurantes e prédios.

Os velhotes iam para onde tivesse assento e um pouco de sol. As crianças, umas com patinetes circundavam o chafariz e ensaiavam uma passagem emocionante por uma ponte sobre um pequeno lago artificial, outras alimentavam com pipoca os peixes horríveis e desproporcionais que praticamente poluíam o lago raso. 

Os mais jovens exibiam seus trajes vanguarda, namoravam e buscavam um local perfeito pra valorizar uma selfie. Os cachorros circulavam na guia, abanavam seus rabos e socializavam muito mais que seus donos.

Conforme eu caminhava ia aceitando aquela aberração em forma de cidade, só abalando a minha tranquilidade os numerosos seguranças fazendo a linha figuração de filme do Charles Bronson. Enfim, foi distrair dos seguranças para ver a ternura e poesia do encontro, a comunhão do homem com a natureza. Dois garçons, sentados em um banco, esperavam o horário do expediente ouvindo o canto dos passarinhos. Eles ficavam calados, só curtindo o som.

Fiquei tocada com a cena! Não consegui parar de olhar para os rapazes, embora quisesse ver os passarinhos. Quando cessou o canto, um dos rapazes pegou o celular, apertou o play e fez o passarinho começar a cantar novamente. Abominações à parte, achei os sujeitos geniais. Afinal, para um simulacro de cidade um canto de passarinho à altura.

Priscilla Oliveira Xavier

Smart Cities

Este slideshow necessita de JavaScript.

No dia 30 de Abril a Casa do Saber recebeu o Fórum COPPEAD em Smart Cities. O evento foi promovido pela COPPEAD e seus parceiros, celebrando os 450 anos da cidade e tornando público pesquisas e ações que vêm transformando o Rio de Janeiro.

Elaine Tavares, professora e coordenadora do Centro de Estudos de Cidades Inteligentes, abriu o evento dando as boas vindas a todos e apresentando a ideia do fórum, os convidados e as temáticas. Enfatizou que cidades inteligentes toureou-se um grande tema nesse momento, com tudo a ver com os jogos que estão chegando, e com a transformação da sociedade pelo uso intensivo da tecnologia. Explicou o que é o centro de estudos de cidades inteligentes. COPPEAD é uma pós graduação em administração da UFRJ, criado em 1973 como parte da COPPE, autônomo desde 1983. Com 10 cátedras de pesquisa, com investimento de pesquisa vindo de empresas. O centro de pesquisa em Cidades Inteligentes surge das pesquisas da Cátedra EMC em BigData. O fórum tem portanto como objetivo discutir o tema apresentando o centro e seu plano de trabalho, ampliação da rede, sendo o primeiro de uma série de eventos que pretendem promover. Apresentou por fim seus convidados, Flanklin Dias Coelho (Secretário Especial de Ciência e Tecnologia da Prefeitura do Rio de Janeiro), Fred Arruda (Diretor de Operações do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da EMC no Rio de Janeiro) e Alexandre Evsukoff, professor da COPPE.

Franklin Dias Coelho foi o primeiro a ter a palavra. Explicou que há algum tempo a prefeitura trabalha com o conceito de cidades inteligentes, cidade ágil, sustentável, resilientes, sensível, educadora, digital, criativa, cognitiva. Que em 2009 foi feito um plano estratégico, e em 2010 uma revisão já operando a concepção de cidades inteligentes, com visão de futuro, pensando o Rio de Janeiro como um território inteligente. Utilizam para tanto três elementos de escala, sendo eles cidade digital, cidade inteligente e comunidade inteligente. E o caminho projetado envolve processos, sistemas e governança. E como exemplo do emprego dessas ideias menciona o Projeto Porto Maravilha, um projeto de parceria público privada.

Ponderou que para construir uma cidade inteligente é imprescindível uma rede capaz de conectar governo, empresas e cidadãos. Essa é a pré condição de cidades inteligentes, com a prioridade inicial em prédios públicos. A agilidade, com ciência, big data e um novo paradigma de design, planejamento e políticas urbanas, abrindo caminhos para uma nova ciência urbana, a partir de clusters de informações, com o Instituto Pereira Passos, cruzando dados. Iniciou com o RioDatamine, com 46 bancos de dados, entre eles o do IPP. Soma-se o Data.Rio e toda uma engenharia institucional para formação de dados sobre a cidade. Conjuntamente, o Wazy, o Buus e demais aplicativos que ampliam as possibilidades de integração e articulação na cidade, especialmente em termos de acessibilidade.

Franklin apresentou ainda a arquitetura nômade que tem como ideia se valer dos equipamentos construídos para eventos serem formatados para aproveitamento público, como escolas ou postos, não deixando na cidade os chamados elefantes brancos. Na visão de cidade educadora tem a proposta de naves do conhecimento, como instrumentos para a construção de bairros inteligentes, integrando educação formal, informal e construção coletiva do conhecimento. O cidadão protagonista é uma proposta interativa nas naves do conhecimento, com direito à informação e conhecimento, além da integração de saberes e cultura, ampliando os caminhos de comunicação, em que as comunidades assimilam, articulam e produzem conhecimentos.

O Rio como Cidade Cognitiva, o projeto cidade de Ideias para a disseminação da informação e colaboração para inovação, com o Rioapps e o RioDatamine. E a partir das ideias o RioApps, como caminho para startups. Já existe o Cidadão10,#streetArtsRio, PROCONCarioca, UPA, Restaurantes e o mais famoso a ganhar o prêmio foi o EasyTaxi. Conectividade, BigData para se transformarem em serviços para a população.

Fred Arruda foi o segundo convidado, falando da empresa EMC, seus produtos e pesquisas. A EMC nasceu de uma tese de doutorado nos EUA e hoje está presente em mais de 90 países no mundo. Tradicionalmente vende soluções de storage, ou seja, armazenamento de dados. E a empresa é composta pela EMC, RCA como empresa de segurança, Piveton e a Viemany com soluções de virtualização. Como a internet agiliza as trocas de informações, tanto as empresas quanto as pessoas necessitam se redefinir.A EMC trabalha com venda de storage mesmo antes da maior difusão da internet, mas a empresa passa pelo processo de redefinição. Se instalou no Rio de Janeiro com um centro de Pesquisa, distinto dos demais que desenvolvem BigData, voltado para a indústria de óleo e gás. Por ter o setor público como um grande cliente, o seu grande desafio era o de ampliar o diálogo, trabalhar mais juntamente com o setor público, pensando tecnologias para as cidades inteligentes.

Fred recordou que até bem recentemente pensar em cidades inteligentes não ia muito além de acessibilizar internet em praças e em áreas centrais. E menciona o exemplo de Piraí que foi a primeira cidade digital do país, e que foi além de fornecer acesso a internet nas praças.

Concluindo, Fred mencionou que em 2012 o governo federal estimulou a gestão dos municípios com uso ampliados da informação. E na ampliação da capacidade de armazenamento e gestão de dados é que a EMC vem atuando, dialogando sobretudo com o setor público para dar suporte e tornar possível a estruturação de cidades inteligentes.

O Prof. da COPPE Alexandre Evsukoff foi o último dos convidados a se apresentar, com uma fala mais didática sobre o uso de soluções inteligentes para problemas comuns nas grandes metrópoles. Iniciou expondo que há dois tipos de crescimento da cidade, a sublinear que dobra a população sem necessariamente o dobrar da estrutura, e o super-linear em que a população aumenta e a estrutura aumenta até mais. No outro caso, quando os demais fenômenos aumentam até mais que a população levam as cidades ao colapso. Pesquisas indicam que a tecnologia pode incidir favoravelmente nesses casos. E em complemento afirmou que cada portador de celular torna-se um sensor que capta e transmite informações a todo momento. Sejam dados públicos ou privados, a ideia é o uso que forneça soluções para as questões que se impõem nas cidades. Seja no trânsito, no uso dos equipamentos públicos, no acesso ao lazer etc.

Na segunda parte da apresentação se dedica aos padrões de mobilidade. Em seu projeto utiliza base de dados de celular para saber onde estão concentradas as pessoas. Embora a malha seja mais fina no centro e zona sul, seus gráficos apontam que há densidade na zona oeste. E com o registro de chamadas e trajetórias pode-se definir a matriz origem e destino, por dia. Com estes dados pode-se adaptar o fluxo de transporte, fornecendo um serviço mais eficiente para a população.

Fechando o evento Elaine Tavares aborda o conceito de Smart City e explica como ela vem construindo uma agenda de pesquisa. Para Eliana Smart City pressupõe o uso de tecnologia para melhorar o planejamento urbano, administração municipal e qualidade de vida. E que esse arranjo é também um fomento ao ambiente econômico.

Refletindo sobre o termo, Elaine considera que smart city não é exato. Há momentos em que não se trata apenas de cidades, pois há bairros, comunidades, regiões envolvidas nesse processo. E o Smart não quer dizer  inteligente, é esperto. Mas a concepção vai além disso, afinal, o foco é o cidadão, a sustentabilidade da cidade e a qualidade de vida.

Aponta que o caminho de construção da Smart City é a coleta, difusão e análise de informações. Conhecer a cidade e seus habitantes, seus gostos, seus hábitos, e demais dados que precisam ser coletados, disponibilizados e analisados para gerar soluções.

Sua análise de uma Cidade Inteligente tem três propósitos, a informação, o aperfeiçoamento e a previsão. Nesse processo são essenciais os usos de BigData, e o investimento em TI em todos os setores da gestão municipal, atingindo até diretamente o cidadão que passa a ser um colaborador mais ativo, informando as demandas e dando respostas para as soluções apresentadas pelo município.

Toma como metas universais a qualidade de vida, a revolução do relacionamento das pessoas com o governo, a melhoria dos serviços de compartilhamento de dados, monitoramento e alerta em tempo real, criando consciência da situação da cidade, proteção da privacidade, ambiência do trabalho, infraestrutura de padrão das referências mundiais, proteção contra cyber crimes, apoio às capacidades individuais, otimização de recursos, melhoria do compartilhamento das infra-estruturas, etc.

E como advertência conclusiva, fala que embora o exemplo de Barcelona seja sempre citado como uma Smart City, não é inteligente replicar aquele projeto. Afinal, o Rio de Janeiro é diferente, a população é diferente, e as soluções precisam ser pensada para cada local.

Texto e Imagens: Priscilla Oliveira Xavier

Tudo em ordem, por ordem de quem?

Este slideshow necessita de JavaScript.

O urbano não foi uma semente que uma vez lançada no solo brotou. O que hoje entendemos, vemos e experimentamos como cidade é resultado de anos e anos de construção, ideias e relações. E como bem advertiu Weber, o que fez as pessoas se concentrarem no espaço não pode ser colocado exatamente no plano do acaso, afinal, as pressões, interdições e expulsões nos campos, onde as pessoas proviam sua subsistência, têm papel decisivo no processo de urbanização. Entre outros fatores como dotações materiais, produção, mão de obra e mercado, o urbano se realiza por firmes regras de comportamento, também muito conhecidas por civilidade. Dispensando os pomposos termos acadêmicos, miramos a realidade para pensar o quanto a moldura dos comportamentos é constitutiva do espaço urbano.

No Rio de Janeiro, por exemplo, a prefeitura atua com uma secretaria de ordem pública (SEOP), um orgão regulador e fiscalizador da ordem econômica, das posturas municipais e da regulamentação do uso do espaço público. Não é pouca monta. E no Programa Rio em Ordem dá curso a ações de nomes impactantes, mas em nada distante dos seus reais objetivos. A ideia central é o choque de ordem, dispensando explicações para além do objetivo de dar fim à desordem urbana. Outro programa impactante é o Lixo zero, numa parceria da Comlurb com a guarda municipal. fiscalizando e multando quem suja as ruas da cidade. E como exemplo d ordem pública no setor econômico, o programa Empresa bacana, que atua no combate a informalidade em comunidades carentes. Além dos programas, o orgão coordena ações divididas em Unidade de Ordem Pública, (UOP), delimitando áreas prioritárias para concentrar atividades, no mais das vezes pontos turísticos ou de concentração de atividades econômicas. Essas são algumas das atividades fiscalizadas, mas é bom lembrar que me referi a competência direta da prefeitura.

Há espaços de convivência que deixam dúvida de quem é a responsabilidade por zelar, mas é certo o fato de que há fiscalização. Um desses espaços de repressão que anda dividindo opiniões é o transporte público, especialmente os serviços prestados por empresas terceirizadas. O metrô tem sido local tanto de insegurança, por assaltos e acidentes, quanto de repressão de atividades. Os seguranças da empresa são acionados em horários de grande movimento, organizando a entrada e saída dos vagões, algumas vezes de modo truculento, e atuando para conter qualquer confusão ou manifestação de descontentamento. Entretanto, nos horários de menor circulação de passageiros e em estações pouco movimentadas, esses funcionários não são vistos, tornando o transporte um local vulnerável, facilitando a ações criminosas (para além do valor da tarifa, claro). Por outro lado, os seguranças atuam de modo eficiente na proibição de apresentações artísticas ou comércio nos vagões.

Os exemplos apresentados demonstram o quanto as ações mais simples do nosso cotidiano estão enquadradas entre o que é ou não é permitido, em um sistema de intensa fiscalização. Não nos damos conta das proibições, na medida em que temos boa parte das ordens introjetadas, como o andar vestido ou não levar o cachorro ao cinema. E o que mais salta aos olhos não é meramente a intensa vigilância de câmeras, o rigor dos fiscais de posturas, os guardas ou seguranças, mas como nós mesmos atuamos diariamente como defensores aguerridos das ordens. Agora pense no seu dia e me diga, quantas coisas você viu hoje e condenou, achando um enorme absurdo? A diferença entre você e o fiscal da prefeitura á a ação, no caso a dele é racionalmente orientada, no exercício de uma profissão, e a nossa socialmente estimulada, nem sempre acompanhada de uma reflexão razoável.

Texto e Imagens: Priscilla Xavier

Urbe para infanto

Este slideshow necessita de JavaScript.

Manda o costume brasileiro guardar os feriados. E com tanto zelo que a véspera o e dia seguinte ao feriado se tornam um pouco feriado também. No escritório os que comparecem saem mais cedo. O setor público fica a mercê de um tal de ponto facultativo. As escolas se ajustam como podem ao calendário mínimo. E a população se organiza conforme as circunstâncias. Nesses dias “meio barro meio tijolo” calha das crianças ficarem à toa em casa, as mães ocupadas com afazeres domésticos e sem paciência, e os pais com pendências pra resolver na rua. O arranjo provável é o pai levar as crianças para a rua, e a conclusão em geral é de que a experiência não é muito boa, mas serve para pensar.

E lá se vai o pai ou a mãe para a rua com duas crianças. A caminhada na calçada é algo trivial, mas requer cuidados. O calçamento nem sempre é nivelado, as garagens nem sempre são devidamente sinalizadas, alguns carros estacionam sobre a calçada obrigando o pedestre a ganhar a rua, e as vezes a altura do meio fio exige esforço complicado para crianças e idosos. Olhos e ouvidos atentos, os pais com muita atenção tiram esse desafio de letra. Vencido o passeio na calçada, em alguma momento chega a travessia. Essa é perigosa para todos. Vale a regra de esperar o sinal e atravessar na faixa. As vezes o tempo para travessia exige que o adulto puxe a criança, quase corra. Nesse caso é válido lembrar aos motoristas que o sinal estar aberto não legitima investir contra os pedestres, e crianças e idosos caminham em tempo diferente, é preciso parcimônia.

No caso de ruas em que os veículos podem trafegar em alta velocidade os sinais e faixas são substituídos por passarelas. E a passarela precisa ser usada, de mãos dadas, cuidando para que as crianças não se pendurem aqui e ali para ver o movimento dos carros lá embaixo. Para os adultos pode parecer claro e objetivo que a passarela é um recurso para ele ir de um lado ao outro, mas para as crianças ela pode facilmente parecer um brinquedo, uma aventura, qualquer coisa divertida que aguça a curiosidade. Seguindo, se o passeio for mais distante é necessário o uso do transporte público. Aí a situação pode complicar um pouco.

Para pegar um ônibus com duas crianças é fundamental paciência e equilíbrio. Fazer sinal para o ônibus, embarcar cada uma das crianças, pagar a passagem, proteger as crianças para que se sentem se houver lugar, ou se segurem para não caírem nas arrancadas do percurso. Nos ônibus não há assentos apropriados, cintos de segurança ou barras de apoio em altura boa para as crianças. A população em geral até colabora, sede lugar, segura as crianças, mas a condução definitivamente é hostil a ela.

E o que dizer dos trens metrô? É bem mais tranquilo pagar pelo transporte e passar nas roletas com as crianças. Mas e aquele famigerado vão entre o trem e a plataforma? Já testemunhei adulto cair travado naquele vão me assegurando que o perigo não é uma lenda urbana. Se para adultos é uma temeridade, imagina para as crianças! As composições tem tamanhos variados, fazendo maior ou menor esse vão, mas o perigo de cair ou tropeçar é o mesmo. Pulando o vão, o que dizer do tempo para embarcar nos vagões? Enfim, tem que ficar muito atento para embarcar com rapidez e segurança. E assim como no ônibus é fundamental contar com a boa vontade da população para dar assento às crianças. E caso ocorra de ficar em pé, é prudente se afastar das portas que podem prender os pés, as mãos ou objetos, e a cada estação proteger as crianças para que não sejam arrastadas pelos que saem ou entram.

E então, curtiu a véspera de feriado? Foi bom levar as crianças para passear? Pois bem, todos esses parágrafo para refletir como a ideia de privar as crianças do urbano tem muito mais aderência do que a de tornar o urbano acessível para as crianças.

Texto e Imagens: Priscilla Oliveira Xavier

O estalo para o urbano

Este slideshow necessita de JavaScript.

A percepção do urbano é um diálogo constante com a atualidade e um flerte com o devir, ambos menosprezados por uma suposta naturalidade. Seja pelo ritmo cotidiano que anestesia nossas percepções, seja pelas imagens persistentemente propagadas que embaçam nossas visões, seja pelas fragmentações pulverizam a noção do todo. E quando damos conta de um detalhe ou outro mais reflexivo do urbano, é como o chão que se abre.

Ilustrando prosaicamente, uma amiga alemã, da época da graduação que fizemos na UFRJ, veio ao Rio de Janeiro passar férias. Marcamos de nos encontrar e eu a convenci de visitar uma exposição sobre as primeiras imagens da cidade. Claro que a minha ideia era rever minha amiga e ao mesmo tempo visitar a exposição que muito dialoga com meu objeto de tese. E minha amiga topou empolgada!

Chegamos ao instituto, passeamos um pouco para ela conhecer um pouco o local, encantador diga-se de passagem. Em alguns minutos adentramos na exposição mais divulgada. Líamos logo no início sobre a chegada do cinetoscópio e a revolução do equipamento na construção de imagens da cidade. E desta introdução seguiam-se imagens de pessoas, reuniões familiares, casarões e só um pouco depois ganhando as ruas, os espaços de convívio na cidade.

Em uma certa altura minha amiga se deparou com uma imagem da Rua do Catete, e me pediu que indicasse na foto onde ela morava. Apesar de tratar-se de um trecho nas imediações do atual Palácio do Catete, expliquei que em 1910 o local que ela morava não era ainda uma área incorporada à cidade. Ela esboçou uma cara curiosa, no misto de pesar e estranhamento.

Seguimos a visita e minha amiga novamente parou, desta vez incrédula, perplexa. Estava ela diante de uma imagem de uma rua de Copacabana na década de 30. Olhou para mim, apontou para a imagem e disse: não existia Copacabana em 1930? Sorri e tentei explicar que boa parte da estrutura urbana que ela identifica caracteristicamente como Rio de Janeiro teve impulso em meados de 50. Ela ria de chorar! Disse: Você tá brincando que em 1930 a cidade mal chegava a Copacabana? Eu disse que a urbanização do Brasil se deu de forma tardia e acelerada se comparada ao processo que ela conhece na europa. Ela olhava estarrecida! Por fim, pra amenizar um leve desconforto, ela soltou: A barata Ribeiro já era o point…

Enfim, o urbano não esteve sempre aí e por precário que pareça não tem muito tempo que era bem pior. Basta forçar a memória lembramos, por exemplo, que o metrô do Rio nos idos de 1980 não abrangia mais que sete estações. A linha amarela, congestionada até as saídas, foi inaugurada um dia desses. E toda aquela parte que não vemos, como as tubulações de água e esgoto, também desenvolveram muito e de duas ou três décadas para cá.

Podemos ler textos e mais textos que falem da urbanização, podemos ler sobre o assunto até mesmo em jornais e revistas, mas nada nos dá uma percepção tão clara e nos faz refletir intensamente sobre a complexidade da urbanização e sua naturalização do que os episódios cotidianos. Eles são como estalos para despertar. E não exclusivamente para o urbano, para tudo.

Texto e Imagens: Priscilla Oliveira Xavier