O estalo para o urbano

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A percepção do urbano é um diálogo constante com a atualidade e um flerte com o devir, ambos menosprezados por uma suposta naturalidade. Seja pelo ritmo cotidiano que anestesia nossas percepções, seja pelas imagens persistentemente propagadas que embaçam nossas visões, seja pelas fragmentações pulverizam a noção do todo. E quando damos conta de um detalhe ou outro mais reflexivo do urbano, é como o chão que se abre.

Ilustrando prosaicamente, uma amiga alemã, da época da graduação que fizemos na UFRJ, veio ao Rio de Janeiro passar férias. Marcamos de nos encontrar e eu a convenci de visitar uma exposição sobre as primeiras imagens da cidade. Claro que a minha ideia era rever minha amiga e ao mesmo tempo visitar a exposição que muito dialoga com meu objeto de tese. E minha amiga topou empolgada!

Chegamos ao instituto, passeamos um pouco para ela conhecer um pouco o local, encantador diga-se de passagem. Em alguns minutos adentramos na exposição mais divulgada. Líamos logo no início sobre a chegada do cinetoscópio e a revolução do equipamento na construção de imagens da cidade. E desta introdução seguiam-se imagens de pessoas, reuniões familiares, casarões e só um pouco depois ganhando as ruas, os espaços de convívio na cidade.

Em uma certa altura minha amiga se deparou com uma imagem da Rua do Catete, e me pediu que indicasse na foto onde ela morava. Apesar de tratar-se de um trecho nas imediações do atual Palácio do Catete, expliquei que em 1910 o local que ela morava não era ainda uma área incorporada à cidade. Ela esboçou uma cara curiosa, no misto de pesar e estranhamento.

Seguimos a visita e minha amiga novamente parou, desta vez incrédula, perplexa. Estava ela diante de uma imagem de uma rua de Copacabana na década de 30. Olhou para mim, apontou para a imagem e disse: não existia Copacabana em 1930? Sorri e tentei explicar que boa parte da estrutura urbana que ela identifica caracteristicamente como Rio de Janeiro teve impulso em meados de 50. Ela ria de chorar! Disse: Você tá brincando que em 1930 a cidade mal chegava a Copacabana? Eu disse que a urbanização do Brasil se deu de forma tardia e acelerada se comparada ao processo que ela conhece na europa. Ela olhava estarrecida! Por fim, pra amenizar um leve desconforto, ela soltou: A barata Ribeiro já era o point…

Enfim, o urbano não esteve sempre aí e por precário que pareça não tem muito tempo que era bem pior. Basta forçar a memória lembramos, por exemplo, que o metrô do Rio nos idos de 1980 não abrangia mais que sete estações. A linha amarela, congestionada até as saídas, foi inaugurada um dia desses. E toda aquela parte que não vemos, como as tubulações de água e esgoto, também desenvolveram muito e de duas ou três décadas para cá.

Podemos ler textos e mais textos que falem da urbanização, podemos ler sobre o assunto até mesmo em jornais e revistas, mas nada nos dá uma percepção tão clara e nos faz refletir intensamente sobre a complexidade da urbanização e sua naturalização do que os episódios cotidianos. Eles são como estalos para despertar. E não exclusivamente para o urbano, para tudo.

Texto e Imagens: Priscilla Oliveira Xavier

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O verão dos 450 anos da Cidade Maravilhosa

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O Rio de Janeiro continua lindo! A exclamação cantada nos versos de uma música, no ano em que a cidade completa 450 anos ganha contornos de interrogação.

A cidade exaltada pela harmonia da estrutura urbana com as paisagens naturais está mais velha, mas passa por obras que têm a intenção de deixá-la com jeito de novinha. Entretanto, as mudanças na aparência não dão conta dos problemas antigos da cidade.

O Rio de Janeiro no início do período republicano convivia com dificuldades no abastecimento de água, de alimentos, da circulação das pessoas, sofria com doenças que encontravam no calor, rios, pântanos e esgotamento precário um ambiente oportuno para a proliferação, e já padecia também com as galhofas dos poderosos que davam vida ao que seria a nossa cultura política nos caprichos pessoais, pouco caso com as demandas da população, em acertos amistosos e no nepotismo descarado. O que era ruim teve que ganhar um brilho a qualquer custo quando a cidade se tornou a capital da República, afinal, haveria de espelhar essa grandeza.

E o Rio de Janeiro se fez cidade em praças, jardins, ruas, avenidas, calçamentos e o que mais fosse necessário para torná-la cúmplice do um sistema econômico que ditava no espaço as suas necessidades. E o país amadurecia politicamente buscando configurações que limitassem os desígnios localistas, culminando em 1937 em um Estado novo, de governo centralista, marcado pela hipertrofia do poder executivo e vigor da força policial. Na capital da república abundaram museus, bustos, placas e praças para conferir notoriedade ao poder instituído, na prerrogativa de ser o autor e narrador de uma história oficial de glória, capaz de forjar a unidade da nação.

E o Rio de Janeiro foi sendo palco da política nacional, se consolidando como espaço de decisões. Juntamente com São Paulo a capital era um eixo econômico, atraindo fluxos migratórios especialmente das regiões do norte e nordeste. E haja estrutura urbana para abrigar os políticos e suas pretensões, eventos que modificavam o cotidiano da cidade e o contingente de trabalhadores que chegavam na cidade em busca de oportunidades. E o que se impunha à cidade despreparada para tamanho adensamento era tanto um desafio quanto um impulso para a sua estruturação, a qual foi promovida em nome da racionalidade e em tons urbanísticos.

Ainda na perspectiva da centralidade, mas desta vez mais espacial do que administrativa, o Rio de Janeiro sofre um revés. Com a construção de Brasília, sintetizando e concretizando um projeto modernista em uma nova capital, o Rio de Janeiro perde o prestígio político, e junto dele grande soma dos recursos que eram revertidos para sua estruturação. Apesar dos pesares, o glamour e a efervescência intelectual e cultural não se abalaram.

O Rio de Janeiro já estava acomodado engenhosa e urbanisticamente entre o mar e as montanhas, reunia em sua região central camadas de história, transbordava cultura material e imaterial de valor inestimável, se caracterizava por expressões da cultura popular como o samba, inspirava na intelectualidade dos bairros da zona sul a Bossa Nova e o rádio e a televisão só depunham em favor de seus encantos. E assim o Rio de Janeiro cresceu como uma cidade muito bem falada, e se reduziu enquanto cidade vivida, enquanto espaço do cotidiano.

O Rio de Janeiro como cidade maravilhosa passa de crônica para marcha carnavalesca, e da marcha carnavalesca para hino da cidade. Nessa caminho a maravilha se complexifica no inconsciente coletivo em paisagens deslumbrantes e sensações idílicas, realizando ilusões e inspirando desejos, selecionando nos discursos o que pertence e o que não pertence ao cenário carioca.

E o enredo da cidade maravilhosa vai ganhando vitalidade conforme vai sendo explorado, seja pelos políticos, seja por empresários do comércio, cultura, lazer e turismo, seja até mesmo pela população que se envaidece. A imagem da cidade maravilhosa colocava debaixo do tapete a perda de expressão política de não ser mais a capital. E para debaixo do tapete também iam problemas típicos das metrópoles, como transporte, habitação, saúde e educação.

Para os problemas do cotidiano, tratamentos improvisados, soluções momentâneas, ou o mero pouco caso. No entanto, o mais agudo desses problemas era a distribuição espacial da população de baixa renda na região metropolitana, alimentando a estratificação do espaço. E tal questão se agravava governo após governo.

Após anos de silêncio de um período de supressões de alguns direitos e falseamento de outros, numa manifestação da sociedade pelas “Diretas Já” a principal avenida do Centro do Rio de Janeiro, a cidade que não é a capital explode como a voz do país. E não muito tempo depois, no mesmo espaço, novamente a população gritou, dessa vez pelo Impeachment do presidente Collor. Enfim, não era mais a capital mas dava demonstrações irrefutáveis que ainda falava alto.

Ao sabor da economia mundial, o Rio de Janeiro na vanguarda se alinha aos imperativos de tornar a cidade economicamente ativa. Aliás, ativa e ativo. Desde o mandato do Prefeito Cesar Maia a cidade está para negócios. Os investimentos em propaganda da cidade crescem, a elaboração discursiva dá nome a projetos de tornar as favelas bairros. Concomitantemente, os atrativos culturais ganham destaques pretenciosos, como o Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas (antigo pavilhão de São Cristóvão, onde se instava a Feira dos Paraíbas), a Cidade do Samba e a Cidade da Música. E nas gestões que se seguiram o embelezamento de áreas potenciais da cidade, visando atrair investimentos e turismo, com foco na estruturação para a recepção de grandes eventos. Sendo breve em citar alguns deles, temos a Eco 92, os jogos Pan Americanos, o Rio+20, a Copa do Mundo e em 2016 teremos os Jogos Olímpicos.

Sobre os grandes eventos, no meio da Copa do Mundo, a população insatisfeita ganhou as ruas e descobriu na covarde base da porrada que a democracia tem limites violentos. E enquanto isso o prefeito ganha prestígio internacionalmente como um excepcional player no city marketing. Vida que segue, obras que seguem, negócio são negócios.

O verão de 2015 para os cariocas é a versão do insuportável, com um sistema de transporte público precário, ineficiente e insalubre (altas temperaturas dentro dos veículos), com aumento do número de roubos e furtos praticados espacialmente em arrastões que se proliferam na orla e interrupções frequentes no abastecimento de energia e água, especialmente em áreas de grande concentração de habitações de população socialmente vulneráveis, leia-se favelas.

Aguçando as tenções, uma coluna assinada no jornal de maior circulação sugeria ao poder público a criação de mecanismos capazes de restringir o grande fluxo de pessoas nos bairros nobres da zona sul nos finais de semana. Fora esse acinte, e muito mais dramático sobre a segurança pública, apenas em janeiro foram três crianças mortas, vítimas de balas perdidas.

Saúde? Cada um dá um jeito de cuidar da sua e o prefeito e seus filhos podem pagar por excelentes médicos. Educação? Os professores que reclamaram logo após as grandes manifestações de 2014 ainda sofrem as consequências. E nas selfies a magia é estar na cidade maravilhosa, afinal, os problemas não cabem nas fotos.

Embora seja necessários malabarismos para fazer o orçamento da cidade cobrir despesas fixas, recursos não parecem problemas quando o assunto é investimento na divulgação da imagem da cidade. E tal é notável no empenho do prefeito em criar um Comitê Rio 450 anos para organizar ações e eventos comemorativos do aniversário da cidade, tendo como foco a identidade do carioca, com direito a concurso para escolher a rainha dos 450 anos. E fortalecendo as iniciativas da prefeitura, o Jornal O Dia produz uma coluna especial dedica aos 450 anos da cidade, com uma linha do tempo que período a período faz um recorte dos eventos, personalidades e espaços de destaque para a história da cidade. E o Jornal O Globo não fica de fora, traz também uma página especial para o Rio 450, exibindo lugares, personalidades e expressões culturais que são a cara da cidade.

Sobre 2015 que só começa, vai ter carnaval e a cidade faz aniversário…fica, vai ter bolo!

* Texto e imagens: Priscilla Oliveira Xavier

Frankfurt não é mais a mesma, e sequer uma pedra seria

Em 2011 estive em Frankfurt. Desta visita recordo com graça das folhagens vermelhas, alaranjadas e amarelas, as quais me iluminaram associações para a escolha do amarelo na bandeira alemã. Pode não ter relação alguma, mas a vegetação é sim um trunfo, um elemento significativo, um tom muito próprio, e portanto distinto, que contrasta feliz com o acinzentado e ocre das construções. Mas Frankfurt não é a Alemanha, embora condense muito do que possa caracterizá-la, a despeito de não ser a capital do país.

Minha admiração com Frankfurt não se resumiu à vegetação ou imponência das edificações em pedra. A população me impactou. No imaginário de quem habita a américa, a europa é o repositório e a matriz da cultura e da civilização ocidental, e a alemanha o bastião da pureza. Enfim, é pensar em um alemão e vemos aquele sujeito branco, loiro, enorme. E se pensarmos com mais detalhes, ele bebe cerveja e se veste emperequetado como no folclore propagado pela oktober fest. Pois bem, esse alemão habita apenas o nosso inconsciente, e se muito, pois na alemanha mesmo os que habitam são fonetipicamente asiáticos, indianos e, claro, os tais loiros, nem sempre tão grandes, além da mistura possível de toda essa gente.

Retornei ao Brasil sem entender muito bem, mas instigada com o que vi sem sentir. E três anos depois, quis as promoções de passagens aéreas que eu retornasse à europa via Frankfurt. Na verdade eu queria muito conhecer qualquer lugar, mas não necessariamente retornar para Frankfurt. Mas tudo bem, era um porto seguro, uma cidade grande que cumpre sua função de cidade grande: condensa multidões. Lá fui eu cheia de interrogações para Frankfurt, e ela já não era a mesma. Tampouco eu sou! A frase é mera retórica mesmo. Enfim, cheguei no aeroporto e já fui secamente tratada pelo policial responsável por carimbar meu passaporte. O argumento de que eu estava indo a Frankfurt para turismo não o convencia. E eu não tinha o que inventar! Talvez dizer que eu era prostituta, ou que fazia tráfico de drogas, sei lá, na hora não me ocorreu nada além da verdade, era um trâmite burocrático, daqueles que minam a magia e essência criadora. Com olhar cerrado e ares de contragosto ele carimbou e devolveu meu passaporte dizendo algo. Talvez ele tenha dito “vai tomar no cú sua piranha” ou “seja bem vinda”, não faz diferença. O importante par lidar com os alemães é não se abalar com o tom, pois em alemão nada é gentil, doce, meigo ou suave. Até um “Ich liebe dich ” tem tom de acusação.

Passado o ingresso nada amistoso, fui em busca de um transporte público que me levasse para o centro da cidade. Eles são muito bem servidos de transporte, com taxis e linhas de ônibus para o centro e cidades vizinhas no térreo, e no subterrâneo trens e metrô. Em um equipamento paguei um bilhete, que não precisa ser colocado em lugar nenhum, pois seu trânsito é livre. Explico para meus amigos que toda a liberdade e civilidade é fruto de condicionamento e repressão, e essa confiança de que todos compraram o bilhete não é cega! Embora sejam poucas as estações do aeroporto para o centro, na primeira parada entraram jovens de tipos bem variados, um deles negro (não são os mais comuns por aqui), e na sequência dois guardas enormes. Pois bem, chegando ao centro os guardas perguntaram pelos bilhetes, olhando grosso modo de todos, e indo direto no rapaz negro, que rodou por não ter nem bilhete, nem documentos. Meu ingresso na cidade me explicava que a diversidade de pessoas que dissolveram minha imagem do alemão se ampliou. Fato!

Se há alemães de todo tipo, é de supor que a cultura é um mix. Na gastronomia, por exemplo, a salsicha, o strudel e a cerveja alemã competem em iguais condições com goulaches, quebabs, samusas, tec-mex, pizzas, raps e crepes. Já nos trajes, música e filmes, ponto para a américa. Dessa vez além de Frankfurt, visitei também Stuttgart e em nenhuma dessas cidades tive a oportunidade de ouvir música em língua alemã. Onde me hospedei a música não para, sempre em inglês. No centro de Frankfurt vi um show de uma banda de rock, visual alternativo, todo mundo de preto, cabelos pintados de preto, e a execução terrível de clássicos pop de blink 182. Cultura é isso, cada qual se apropria ao seu modo!

A efervescência da área central no sábado me deixou em transe. Nunca antes tinha visto pela europa multidões como estou farta de ver no Brasil. Saca Saara nas vésperas do Natal? Então, fichinha! Criança, idosos, cachorro, adolescentes, famílias inteiras, manifestações, intervenções artísticas, feira, ambulantes e muita, muita, muita, muita polícia. Para todos os lados. Sou condicionada a compreender a presença maciça de efetivo policial como uma ode à covardia, e já estava tensa e arrependida por ter deixado meu passaporte no hotel. Ao menor sinal de confusão eu já estava apta a colocar as mãos para o alto e devolver as nutellas furtadas no café da manhã que eu trazia no bolso do sobretudo. Situação dramática! Mas fui me distraindo com a dança esquartejada da uma trava loira e estrábica vestida de cigana, comi um pão com salsicha regado na mostarda que fica exposta para as bactérias, ouvi um sujeito tocando percussão com uma máscara de cavalo, comprei um waffle com geleia sem geléia porque tinha acabado, e aos poucos me entrosava e ia me sentido local entre tantos diferentes, pois eu era se muito uma diferença a mais.

Relaxando com os passeios, notei mais as pessoas e as coisas. Por exemplo, ao redor do metrô ficam hordas de criaturas que bebem álcool o dia inteiro, tal como se fosse água, fumam como exús e não dão menor crédito para dentes. Juntando uns 20 desses não se contam 70 dentes! Enfim, dentes pra quê te quero? Supérfluos! E notei também que na rua que liga o hotel onde eu estava hospedada ao miolo comercial há uma parte associada com pornografia. Na vitrine que ocupa toda a esquina são exibidos sem qualquer restrição um sem número de pirocas, de cores e tamanhos variados. Mas entrando na loja a coisa é decepcionante, pois o que há são revistas, vídeos e produtos bobos como dadinhos e gels.

A noite em Frankfurt? Fria, de temperatura. Mas aquecida por bebida. As pessoas que curtem beber se encontram em casas noturnas nas imediações das margens do rio. A entrada é gratuita, pagam a bebida que consumir, mas ainda assim não faltam os que já vão pra noitada bêbados. Como não consumo bebidas alcoólicas, me restou a comida. Tem pra todos os gostos e bolsos. Mas a prevalência é a de carboidratos em relação a proteínas. Tudo é na base da pasta, pães, sanduíches, folhados, batata, pizzas etc, variando o recheio, o molho, o acompanhamento. Eles vão fundo na comida, não tente acompanhar. Uma pizza para eles é unitária, e em geral não é brotinho, é no tamanho de uma média ou maior. Doces? São lindos, mas não atendem muito bem ao paladar brasileiro. Sorvestes e chocolates? São banais e sempre gostosos, vai sem medo!

Concluindo, o retorno ao Brasil é o de quem já não vê um alemão ou a alemanha como antes. E também como quem já não é mais como era antes. Tudo muda, porquê logo Frankfurt não iria mudar?! Enfim, permanece a função cidade, palco onde tudo acontece.

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Croácia, um destino certo

É simplesmente impossível um brasileiro não se encantar pela Croácia. Do que nos identifica, a matriz católica e a diversidade da extensão territorial. Do que nos distingue, um histórico recente de guerra.

Não é honesto definir a Croácia como um país cujas atrações são as praias. Claro que a orla é magistral, mas se distanciando da orla o encanto fica por conta de densas florestas, vilarejos, vales e montanhas. Enfim, as paisagens naturais são um desbunde, com destaque para os parques com vegetação e lagos com cores invulgares, incríveis.

E mesmo com paisagens suspirantes, o inesquecível é a população. Refratários como os europeus, a um mero convite para a interação se abrem bem ao estilo dos brasileiros, aptos a ajudar no que for, como for, mesmo ainda que não entendam uma só palavra do que você diz. Na primeira vez que presenciei essa presteza, acreditei ser um caso excepcional. Conforme me deparei com outras dificuldades, percebi que era uma constante. Em conversa com uma croata comentei algo sobre a cordialidade das pessoas. Ela me explicou que as pessoas de fato são legais, mas como o país está em crise, não há empregos, e que muitos passam por dificuldades, a população percebe o turismo de modo positivo, como fonte de renda, gerando oportunidades. E por isso se sentem mais estimulados a tratarem bem os turistas. Faz todo sentido!

Sobre a arquitetura, a diversidade é grande, com algumas estruturas medievais, instalações rústicas e até design moderno, variando de acordo com as cidades e áreas dentro delas. Mas um traço triste em comum às estruturas das cidades são os buracos de balas, à exceção da capital Zagreb, por motivos simbólicos óbvios. Tentei saber algo a respeito, mas vos adianto que sobre o assunto guerra vale o adágio de que na casa do enforcado não se fala em corda. O caso é o de “investir” em museus e monumentos para captar uma perspectiva histórica mais pomposa que penosa.

O clima da Croácia varia bastante conforme o lugar e a época do ano. O sol brilha com força na orla, mesmo quando não está calor, e o frio é intenso chegando a nevar em alguns meses do ano nas montanhas. Então os estabelecimentos e as casas são equipados tanto com aparelhos de ar condicionado quanto com aquecedores.

E o mais destoante de tudo é a questão do tempo, no ritmo das cidades, perceptível sobretudo pelo trânsito. Saí do aeroporto com um carro alugado e achei muito esquisito o fato do carro ter pouquíssima potência, não desenvolvia por nada, mesmo sendo novo. Mas logo percebi que os carros trafegam em uma velocidade média de 45km/h, o que para os padrões brasileiros é emperrado, beirando o desespero. Mas logo nos acostumamos, afinal, com tantas rótulas e cruzamentos, de outro modo seria inviável. E nos parece risível entrar numa auto estrada em que a velocidade máxima é de 80Km/h, quando muito 90Km/h. Mas numa rota para Zagreb, para minha surpresa, peguei uma auto estrada que permitia 130km/h, e achei quase perigoso.

Para quem curte ir às compras, as cidades mantém um comércio bem básico, nada animador. Mas em Zagreb o consumo respira mais aliviado, em um enorme comércio de rua na região central, próximo a prédios públicos, igrejas e monumentos. E um enorme shopping center, novidade, na rodovia para se chegar na cidade.

A alimentação, parte boa e importante de uma viagem, é fácil e farta. Nada nos causa grande estranheza, nem carnes, nem frutas, nem legumes ou frutos do mar. O tempero é bem suave, especialmente se comparado ao avinagrado e apimentado da Alemanha. É grande a variedade de pães, embora não sejam os melhores da Europa, e as pizza são sempre ótimas. Como sobremesa, é fácil perceber que são adeptos dos sorvetes.

Para fechar o post, colocando a cereja no bolo, dois argumentos para vos convencer de que a Croácia é um excelente destino. O primeiro até parece mentira, mas você pode circular por qualquer lugar, o horário que for, e não há perigo. As pessoas são honestas (pode perder ou esquecer coisas que serão guardadas), tudo é tranquilo, não há brigas, gritarias ou algo que possa causar desconforto. E o último, irrefutável, é o custo X benefício. O dinheiro rende que é uma alegria, não tem como se arrepender! Em casa eu gastaria mais … partiu Croácia?

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Seminário “Rio pensa o futuro”

 

Auditório da Firjan

Em um momento em que o Rio de Janeiro atrai os olhares do mundo como local promissor para investimentos financeiros, instituições de pesquisa e local de trabalho, um desafio é posto: Como assegurar que o momento promissor se firme como um futuro que conjugue desenvolvimento e justiça social? O seminário aspira respostas para esta pergunta, a partir dos eixos temáticos sustentabilidade ambiental e social, desenvolvimento tecnológico, economia criativa, instituições políticas e geração de investimentos. O evento ocorreu no auditório da Firjan no dia 29 de Maio, e a mesa de abertura foi composta por Isaac Plachta, Maurício Ribeiro e Daniel Cerqueira.

Isaac Plachta se pronunciou em nome da FIRJAN afirmando que a iniciativa do evento é oportuna porque às vésperas de mega eventos internacional abre a discussão para assegurar o desenvolvimento da economia e da indústria no estado. Menciona a mobilidade como um grande desafio, e uma das maiores preocupações da população. Salienta que as políticas públicas precisam melhorar o tratamento e a distribuição de água e esgoto, investir em saúde, educação, segurança e lazer, colocando o indivíduo como o centro das ações do estado.

Maurício Ribeiro, representante da CEPERJ, pensa no que é preciso fazer para garantir que os promissores investimentos se efetivem, o que é preciso fazer para que esses recursos realmente venham para o Rio de Janeiro. É pela falta de certezas que é fundamental pensar estratégias que garantam a vinda de recursos e que eles se traduzam em desenvolvimento sustentável e justiça social, animando um círculo virtuoso para o desenvolvimento do estado.

Daniel Cerqueira, diretor de Estado, Instituições e Democracia do Ipea, fala do prazer de estar presente para compartilhar ideias. Morando no Rio de Janeiro, deseja a cidade mais próspera. Até porque simbolicamente a cidade é relevante para o país, pois se o Rio de Janeiro está bem na foto, o Brasil está bem. Mas no momento o Rio de Janeiro não está tão bem na foto. Contudo, se olharmos o filme, o Rio de Janeiro esteve bem pior em um passado recente, mas vem reagindo, vem se mobilizando por melhorias, com impulsos na indústria de gás, petróleo, turismo de lazer e negócios, cadeia de alta tecnologia, pólos acadêmicos e alto nível de capital humano. Apesar dos avanços, há tropeços, conflitos e falta de coordenação política no âmbito federativo. Enfatiza a relevância de buscar soluções de governança para os conflitos federativos e chama atenção para a necessidade de maiores investimentos na educação de jovens para o mercado de trabalho, pois pensar o futuro é pensar nos jovens.

 

Priscilla Oliveira Xavier

Um dedo de prosa sobre cidades fluidas

O arquiteto italiano Carlo Ratti está no Brasil. É o diretor do Senseable City Lab no Massachusset Institute of Technology e autor da expressão “cidades fluidas”. Em uma série de encontros o jovem arquiteto envolve com suas ideias um grande número de estudantes, professores, jornalistas e líderes de opinião que se dedicam de alguma forma à cidade.

Sendo um arquiteto jovem e propagador dos benefícios que a tecnologia podem conceder para o melhor uso ou aproveitamento urbano, não é de se estranhar a sua popularidade.

Enumerando os pontos positivos de suas ideias, pretende que a tecnologia seja usada para, por exemplo, monitoramento e melhoria das possibilidades de locomoção. E seu entusiasmo chega ao ponto de pensar em drones que guiem as pessoas pela cidade, ou chips para rastrear para onde vai o lixo que produzimos. E na linha ambiental, os drones também seriam equipamentos úteis para monitorar a qualidade das águas, se é segura ou não.

Largando os drones e colocando os pés no chão, os aplicativos realmente podem ajudar a melhorar a locomoção, dando informações sobre o tráfego, itinerários, disponibilizando taxis ou caronas, e mesmo traçando bons roteiros. Mas fica subestimada nessas possibilidades o que é inevitável na cidade que é o relacionamento com o outro, o compartilhar o ambiente, a comunicação direta, sem o intermédio de equipamentos eletrônicos.

Para além, os equipamentos eletrônicos são muito úteis, mas promovem uma distinção violenta entre os que têm acesso e dominam o uso de equipamentos tecnológicos com sofisticados recursos, os que têm acesso e não têm domínio, e os que estão alheios a essa tecnologia. Independente dessa distinção a tecnologia avança e a cidade tem dinâmica, seja ela fluida como projeta Ratti ou não. Afinal, enquanto busco desesperadamente rede wifi para localizar um endereço, o entregador do caminhão se dirige a alguém que passa pela rua e pede informação.

Paira no ar a reflexão do quanto o humano e a imprescindível relação com o outro fica subestimada, ou intermediada, nas cidades fluidas. Muito pessoalmente, concluo que como consumidora a tecnologia me empolga, mas como humana não me conforta.

Violência como tema e reflexo em trabalhos de pesquisa

O Ipea está na mídia. Vez por outra ele sempre apareceu, mas desta vez estrondosamente em virtude da repercussão de uma pesquisa sobre a violência contra a mulher. A polêmica teve origem em um debate “A violência contra a mulher”, organizado pela Disoc e Diest em 27 de Março. No evento foram apresentados três trabalhos. “Entraves institucionais ao enfrentamento da violência contra as mulheres: construindo diagnósticos”, de Nina Madsen, integrante do colegiado de Gestão do Cfemea. “SIPS – Tolerância Social à violência contra as mulheres”, de Rafael Soares, diretor de Estudos e Políticas Sociais do Ipea. E “Estupro no Brasil: tratamento e consequências, de Daniel Cerqueira, Diretor da Diest.

O trabalho de Nina Madsen é resultado de um seminário organizado pelo Centro Feminista de Estudos e Assessoria em parceria com a ONU Mulheres, o Ipea e a Subsecretaria de Políticas para as Mulheres do Estado do Rio de Janeiro. O trabalho de Rafael Soares metodologia baseou-se na aplicação de um questionário em serviços de atendimento às mulheres em situação de violência do estado do Rio de Janeiro, com o foco na concepção de “tolerância institucional”, realizado pelo CFEMEA, e de um questionário no âmbito do Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS), do Ipea, para uma amostra representativa do conjunto da população brasileira, com o objetivo de se aferir uma “tolerância social”, ambos no ano de 2013. Já o trabalho de Daniel Cerqueira trata-se de uma nota técnica, com a co-autoria de Danilo Coelho, apresenta um levantamento bibliográfico em torno da cultura patriarcal que fornece as bases para as normatizações jurídicas, e posteriormente investe em um estudo de abrangência nacional, para a análise do fenômeno estupro na caracterização da vítima e relação com o perpetrador, em relação ao tratamento fornecido pelo Sistema Único de Saúde e as possíveis consequências desse crime.

Esse debate gerou alvoroço na mídia imprensa, na mídia digital e nas redes sociais a ponto da Presidenta Dilma se manifestar em prol do maior rigor aos casos de violência contra mulher. E na mesma semana os dados apresentados na pesquisa de Rafael Soares foram incorporados às falas de um dos personagens da novela “Em família” de Manuel Carlos. Por tais considerações pode-se intuir a respeito dos resultados dos trabalhos da Disoc e Diest a relevância temática no âmbito social, o empenho em auscultar a sociedade civil, o fomento à ampliação dos debates em áreas especializadas e não especializadas e a capacidade de influenciar o desenho e fortalecimento de políticas públicas.

A comoção nacional centrava-se especialmente nos dados da pesquisa “SIPS – Tolerância Social à violência contra as mulheres”, destacando a gravidade da consideração de que 65% dos brasileiros concordavam com a afirmação “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Todavia, no dia 04 de Abril foi publicada uma errata à pesquisa, corrigindo esta informação para o percentual de 26%. A correção do percentual foi divulgada na mídia junto do pedido de exoneração de Rafael Soares, diretor da DISOC, responsável pela pesquisa.

Há nesse caso um efeito em cadeia na opinião pública alimentada pela mídia, e um alvoroço no campo político em virtude do ano eleitoral. Assim sendo, no primeiro momento o Ipea era um instituto com propriedade que, a partir de um trabalho de pesquisa, alertava a sociedade para o problema da violência contra a mulher, incitando declarações, artigos, discussões e demais posicionamentos a respeito do tema. Com a correção do dado o tema é deixado de lado e o instituto passa a ser o alvo dos comentários, incorporado a disputas políticas. Críticas ao governo são lançadas ao instituto e vice-versa*.

Em síntese, o ocorrido pode ser absorvido por diversos pontos. Do ponto de vista dos problemas relativos a escolha do tema, metodologia empregada e considerações da análise, erros nos gráficos, nas perguntas e na amostragem são acusações sérias, mas que no entanto não chegam a se sobrepor a distinção social que desfavorece a mulher.

Em relação a acusação de que o Ipea foi aparelhado pelo partido da situação, é sempre delicado ser incisivo quanto a este uso da instituição. Afinal, o Ipea nasceu no período de regime militar e sobreviveu cumprindo o papel de instituição com autonomia de expressão, mesmo tendo seus quadros e direções indicados ao sabor de trocas presidenciais e reformas ministeriais.

Enfim, me parece mais prudente colocar o ocorrido na conta do descompasso entre a produção de conteúdos que alimentam a mídia e balizam a opinião pública, a produção de conteúdos que ajudam a construir políticas públicas e a produção de pesquisas que se firmam como contribuições no campo acadêmico. Provavelmente o erro na pesquisa seja fruto dos imperativos de produtividade que acabam por hibridizar os conteúdos em uma fórmula impactante. Mas no caso o impacto não foi feliz.

José Serra e Aécio Neves ganharam espaço na mídia fazendo severas críticas ao erro da pesquisa, ambos ressaltando o problema do aparelhamento do instituto. No caso do Aécio, levantando desconfianças em relação ao que é produzido pelo instituto.

 

Texto: Priscilla Oliveira Xavier